Palácio dos deuses

Sony parou o veículo quando Lothar tocou em seu braço e apontou para a esquerda.

Algumas centenas de metros além da estrada uma parede de rochas avermelhadas erguia-se das areias do deserto, formando uma muralha que se perdia de vista em meio às ondas de calor. Mais distante, um pico disforme erguia-se contra o céu quase púrpura.

- Esse é o palácio dos deuses? - perguntou ele, enquanto saía do veículo.

- Isso mesmo. Traduzindo do idioma local seria algo como lar dos deuses, ou palácio mesmo - respondeu Lothar, subindo uma pequena elevação.

Sony olhou para trás. O comboio havia parado, formando uma linha de tons amarelos e vermelhos atrás do veículo guia. Alguns dos ocupantes saíram dos veículos e andavam em torno, com as armas em punho. O acampamento das forças revolucionárias ficava bem mais ao sul e há algum tempo que seus soldados não apareciam naquela região. Mesmo assim, a vigilância era mantida.

Olhando para a formação rochosa, Sony viu entalhes, esculturas e colunas sobresaindo em meio a rocha, e próximas estavam três barracas brancas, que pareciam muito pequenas perto do que seria o portal de entrada.

- Ouvi dizer que a descoberta foi acidental - comentou.

- Mais ou menos isso - retrucou Lothar. - Eu vi quando a areia compactada que encobria tudo isso daí foi pelos ares.

Sony o olhou com curiosidade. Antes que pudesse perguntar qualquer coisas, Lothar começou a falar, enquanto fitava o palácio dos deuses.

- Eu estava em um comboio, levando suprimentos para os refugiados de Shama. Éramos apenas 15 homens e 5 mulheres que chegaram para ajudar um grupo de pessoas perseguidas. Quando estávamos aqui, neste mesmo ponto, vimos um acampamento junto à encosta de uma duna, bem onde estão aquelas barracas. E mais para lá - apontou para o sul - um grupo de soldados das forças revolucionárias, com lançadores de foguetes e canhões. Eles estavam disparando contra os refugiados!

Sony percebeu uma ponta de raiva na voz de Lothar, que havia parado por alguns instantes.

- Foi então que aconteceu algo. Sinceramente até hoje não sei de onde arranjei tamanha coragem, ou tamanha falta de bom senso. Peguei a pistola e saí do caminhão, decidido a acabar com aquela demonstração de covardia. Fui na direção dos soldados. Não conseguia pensar em nada, apenas queria acabar com aquilo. Enquanto isso os disparos acertavam a duna, fazendo areia voar para todos os lados. Daqui dava para ouvir o grito de crianças desesperadas.

Lothar olhou então para o comboio.

- Então ouvi alguém me seguindo. Quando me virei, a maior parte do pessoal do comboio me seguia, todos com pistolas ou fuzis, que era o máximo de armamento que tínhamos. E percebi que todos tinham a mesma determinação. Entre nós e os soldados havia uma duna pequena. Chegamos no alto dela e ficamos olhando para os soldados que, se deram pela nossa presença, não se importaram. Afinal, quem seria louco de enfrentá-los?

Ele esboçou um sorriso, e seus olhos brilharam.

- Foi então que todos nós, aos mesmo tempo, descemos a duna, correndo e gritando como loucos, disparando em qualquer coisa que se movesse. Os soldados ficaram tão espantados com aquele bando de malucos, que levaram um tempo até reagir. Mas aí já era tarde, pois já estávamos em cima deles, atirando, derrubando na base de socos e pontapés. Eu lembro de ter visto Bady pegar um dos lançadores de foguete e mandar para o espaço um dos canhões. Os soldados tentavam fugir, mas nós éramos como animais caçando, ninguém escapava. Aqueles soldados eram verdadeiros covardes. Enquanto atiravam em pessoas indefesas, se achavam os senhores da situação. Mas quando um bando armado com determinação apareceu, eles colocaram o rabo entre as pernas e tentaram fugir.

- Fomos então até o acampamento dos refugiado. Muitas pessoas estavam feridas. Eu sabia que estava causando um incidente ao fazer uma transmissão de dados e imagens sem autorização do governo local. Mas eu pensei, que se dane essa porcaria de governo daqui, ele é responsável pelo sofrimento destas pessoas. A parte política dessa história você já sabe. O que era apenas suposição ou intriga da oposição se revelou como algo real e mesquinho.

- Quando olhei para a duna, ou pelo menos para o que restava dela, foi que vi uma parte do portal. Hoje essa região pertence a Maba, não mais a Kando. Assim foi possível instalar uma base de pesquisa, remover todo o resto da areia e revelar o palácio dos deuses.

- Chega a ser irônico, não? - observou Sony. - Que os canhões usados para matar pessoas tenham ajudado a encontrar tudo isso daí.

Desceram a elevação, voltando ao veículo.

- O universo nos brinda com coisas estranhas - disse Lothar.

Entraram no veículo. Sony deu a partida.

 

Comments  

 
0 #1 Ghad Arddhu 2009-05-27 09:53 Cena interessante, argumentos que atiçam a curiosidade, gostei no geral. Acho que o único problema de micro-contos quando se deslocam muito de nossa realidade é a sensação de que perdemos algo no caminho. Quote
 

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