Episódio 1 - Escolhas

Índice do Artigo
Episódio 1 - Escolhas
2
3
4
Todas as Páginas

Só para dar um gostinho, os dois primeiros capítulos



I

Terra, 2009 d.C.


Do alto do pequeno palco Lothar observava o ambiente do bar Castor de Pedra, onde as pessoas se reuniam em torno das mesas redondas de madeira escura. Os dois barmen, ocupados atrás do comprido balcão de mogno, pareciam saídos de algum filme do velho oeste, assim como aquele local, cuja decoração lembrava um antigo saloon.

Ao lado do palco havia uma grande TV de plasma presa à parede, desligada no momento. Mais além as três mesas de bilhar, uma ao lado da outra. Em uma delas um grupo disputava o jogo entre um gole e outro de cerveja e algumas risadas.

Espalhadas pelas paredes havia algumas fotos que faziam parte do acervo do dono do estabelecimento, reunindo desde imagens da cidade em seus primeiros anos de vida até a presença de pessoas famosas naquele bar. Luminárias antigas, espalhadas a intervalos regulares, iluminavam de forma sutil o ambiente, dando-lhe um ar aconchegante. Um garçom passava silenciosamente entre as mesas, equilibrando com maestria a bandeja repleta de copos com os mais variados tipos de bebidas.

Após trocar algumas palavras com o tecladista, Lothar preparou-se para a última música daquela noite. Passou a mão pelos cabelos escuros e curtos que contrastavam com a pele clara, e olhou novamente para a platéia. Alguns rostos já lhe eram conhecidos, apesar de não saber os nomes ou ter falado com aquelas pessoas. Principalmente as três moças sentadas à mesa bem em frente, e que pareciam sequer piscar, acompanhando cada movimento seu. Eram duas loiras e uma ruiva, que não aparentavam mais do que vinte e poucos anos. Já as vira várias vezes no bar nas últimas semanas, sempre nas mesas mais próximas ao palco, e sempre juntas.

 

Deixou a guitarra no suporte e apanhou o violão. Tomou seu lugar no banco de madeira alto no centro do palco. Inclinou a cabeça para o lado, revelando o nariz aquilino, enquanto verificava se o violão estava devidamente afinado. Depois voltou a olhar para frente. Um brilho prateado denunciou o pequeno brinco em forma de argola na orelha esquerda.

– Como já estou cansado de cantar para vocês hoje – falou ao microfone, sorrindo, arrancando algumas risadas, – decidi terminar com algo um pouco mais romântico, então escolhi Like I Am . Acho que muitos de vocês conhecem essa.

Alguém no fundo do salão bateu palmas, seguido pelas três moças da mesa à frente e mais algumas pessoas. Depois de quase dois anos animando as noites daquele bar, interpretando músicas famosas e outras nem tanto, já havia conseguindo alguns fãs. Sentado no banquinho alto, enxugou a mão molhada de suor na calça jeans e começou a dedilhar as cordas do violão.

Enquanto ele cantava a porta de madeira do bar se abriu e dois homens entraram. Um deles, alto e magro, o cabelo escuro e comprido preso em um rabo de cavalo, olhou em torno. O outro, mais baixo, limitou-se a ficar alguns passos atrás, em silêncio.

Kyle encontrou quem procurava no palco, fazendo sua apresentação. Esperava que aquela fosse a última música que Lothar estivesse cantando aquela noite. Voltou-se para o homem mais baixo.

– Pode voltar para o carro – falou Kyle. – Vou demorar um pouco aqui.

O outro assentiu com um leve aceno de cabeça e saiu do bar. Kyle ajeitou o terno escuro que vestia sobre uma camisa clara e avançou até uma mesa vaga.

Do lugar onde se encontrava Lothar viu o amigo entrar e sentar-se junto a uma mesa. Sabia que Kyle só entrava naquele bar quando precisava falar-lhe. E desde que acordara no meio da manhã sentia que alguma coisa diferente iria acontecer. Teria Kyle, do qual salvara a vida há alguns meses, algo a ver com esse pressentimento?

Lembrava-se bem do dia em que, como voluntário do corpo de bombeiros, ajudara Kyle a sair do meio de um incêndio em um depósito de material eletrônico. Ao entrar entre as chamas, protegido pela roupa especial, esperava encontrar alguém com sérias queimaduras. Mas Kyle saiu de lá praticamente ileso, pedindo a ele que não falasse nada a ninguém.

E esse segredo era o que os mantinha unidos, em um propósito que Lothar ainda não conseguia entender. Mas as conversas que ambos tinham naquele bar às vezes começavam a esboçar a história na qual estava envolvido.

Quando terminou de cantar levantou-se, entregou o violão para outro músico e acenou para as pessoas que o aplaudiam. Desceu do palco, passou ao lado da mesa onde estavam as três moças, que lançaram-lhe olhares esperançosos. Ele apenas retribuiu com um sorriso e dirigiu-se para o fundo do salão.

Mas parou de repente. Kyle poderia esperar um pouco mais, já as garotas mereciam um pouco da sua atenção.

Na mesa próxima à saída, Kyle ficou a observar Lothar aproximar-se da mesa onde estavam as garotas com um sorriso. Ao ver que ele ficaria um bom tempo por lá, chamou o garçom e pediu uma cerveja escura.

Lothar ainda não conhecia completamente o poder de persuasão que possuía, mas ao que parecia já sabia muito bem como usá-lo. Uma característica dos líderes. E era de um líder que Kyle precisava. Ele podia levar seus planos adiante sozinho, mas uma ajuda tornaria as coisas mais fáceis. Só lhe restava saber se Lothar aceitaria a proposta.

O garçom retornou logo depois, deixando um copo e a garrafa de cerveja na mesa. Ao voltar para o balcão para atender novos pedidos foi interpelado por Lothar, que segurou-o pelo braço, falando-lhe alguma coisa. A garota ruiva entregou ao garçom uma câmera. Depois da foto Lothar despediu-se das garotas e sentou-se junto à mesa onde Kyle estava saboreando sua cerveja. Ficou em silêncio, esperando.

 



 

Comments  

 
0 #1 Alex 2009-05-27 09:53 Óia, bem legal Larissa, gostei mesmo.

Quero mais!!
Quote
 

Add comment


Security code
Refresh

Novidades

Comentários recentes